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Sobre o Autor!

Cecil A. de Almeida Prado Weiss

Há escritores que inventam mundos. Eu, porém, apenas os recordo.

Em Terra Sem Mal, minha voz não fala de fora — fala de dentro da própria terra. De um sangue antigo que atravessou séculos, carregando em minhas veias o encontro entre a floresta e o ferro, o arco e a cruz, o indígena e o europeu.

Nasci em 1958, na antiga Maternidade São Paulo, situada na Rua dos Ingleses, aos pés do Colégio Piratininga — exatamente sobre o solo onde, quatro séculos antes, meus ancestrais Tibiriçá e Piquerobi ergueram suas aldeias e travaram as primeiras alianças e resistências contra os europeus. Nasci, portanto, literalmente sobre o chão sagrado de meus antepassados: o lugar onde a história do Brasil começou.

Descendo das famílias Almeida Prado, Leme, Cunha Gago, Prado, Camargo, Ramalho, Rodrigues, Souza Queiroz, Freitas e Bicudo, pertenço à linhagem dos primeiros paulistas — formados pela fusão entre os povos indígenas de Piratininga e os colonos vindos do mar. Por meio de uma pesquisa rigorosa de genealogias, registros paroquiais e cartas jesuíticas, reconstrui o elo vivo entre o Brasil que nasceu da floresta e o que se ergueu sobre ela.

Minha árvore genealógica remonta aos irmãos Tibiriçá e Piquerobi, filhos do patriarca Amyipaguana e da matriarca sua esposa, líderes tupiniquins que dominaram o planalto antes da fundação de São Paulo. Dessa linhagem emergiram os primeiros mestiços, entre eles os filhos de João Ramalho e Bartira (Izabel Dias - M'bicy), e os filhos de Antonio Rodrigues e Antonia Rodrigues (filha de Piquerobi), cujos descendentes se entrelaçaram aos troncos coloniais, dando origem aos Almeida Prado e a tantas outras famílias que moldaram a história paulista.

Por isso, Terra Sem Mal não é apenas um romance histórico: é uma restituição de memória. Eu não escrevo sobre personagens distantes — dou voz aos meus próprios ancestrais, aos que resistiram e aos que cederam, aos que foram batizados e aos que batizaram. Em minhas páginas, a mitologia guarani e a história colonial se unem em uma só narrativa: a da terra que fala por meio do sangue.

Do cacique Piquerobi herdei o espírito rebelde e o amor à terra. De Tibiriçá, o olhar político e a tentativa de conciliar mundos opostos. De João Ramalho e Bartira, o elo inevitável que uniu o arco à cruz, selando o destino do Brasil. Com sensibilidade literária e rigor documental, transformei minha própria genealogia em obra de arte — um mosaico em que memória, fé e identidade se entrelaçam para mostrar que a história brasileira não começou com a espada, mas com a palavra.

Como escrevo no prólogo: “Sou herdeiro de duas promessas: a dos que sonharam com a terra perfeita e a dos que ergueram cidades sobre ela. Carrego em mim o peso de ambas — e o dever de lembrá-las.”

Hoje, como escritor e pesquisador, devolvo à literatura brasileira o sopro épico de minhas origens. Minha vida e minha obra são testemunhos de que o sangue da floresta ainda pulsa sob o concreto da cidade — e que, mesmo enterrada sob mil ruas, a Terra Sem Mal continua viva.

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Como nasceu esse livro:

Foram mais de dez meses mergulhado nisso.
Não foi uma pesquisa — foi uma travessia.

Quando comecei, achei que bastaria reunir umas cartas jesuíticas, ler Hans Staden, umas crônicas do século XVI, cruzar datas e pronto: o resto seria ficção. Ledo engano. O que eu encontrei foi um labirinto. Um país inteiro sepultado em fragmentos, em palavras gastas, em vozes que o tempo tentou apagar.

Passei noites inteiras lendo os nove volumes da Genealogia Paulistana com uma lupa metafórica na mão, tentando entender como as famílias se misturavam, quem era filho de quem, onde terminava o sangue indígena e começava o português. Depois vieram as Cartas Jesuíticas, os fragmentos históricos, as cartas avulsas, os documentos de capitanias, e cada um deles me puxava para dentro de outro túnel.

Eu lia, anotava, voltava, riscava e começava de novo. Às vezes, um detalhe mínimo — uma vírgula num relato, uma data meio torta — desmontava tudo o que eu tinha montado.
Foram cento e oitenta e quatro arquivos ao todo. Alguns curtos, como bilhetes de quem escreve apressado antes do navio zarpar; outros, volumes imensos, de trezentas, quatrocentas páginas, cheios de latim, português arcaico e palavras que eu precisei decifrar como quem lê um feitiço antigo.

Em certos dias, passava mais tempo comparando as versões de um mesmo evento — uma escrita por um padre,  outra por um cronista que nunca pisou aqui. As versões nunca batiam. O que um chamava de “pacificação”, o outro chamava de “massacre”. A história, eu percebi, é sempre escrita por quem sobrevive, e quase nunca por quem sangra.

Foram meses de leitura exaustiva, na base de dez, doze horas por dia. As pausas eram só para cuidar dos olhos — e de vez em quando, da cabeça. Porque há uma solidão enorme em conversar com mortos.

Li o Hans Staden mais de uma vez, e sinceramente, espero nunca mais ler, algumas partes deu até enjoo, e olha que sou policial aposentado. Li as cartas de Anchieta até o ponto de decorar as passagens em que ele fala dos “gentios amigos” de Piratininga. Li e reli os relatos de Diogo de Gouveia, Pero de Magalhães de Gândavo, e até Sarmiento de Gamboa, pra entender o outro lado do mar — o olhar dos que vieram conquistar.

Houve momentos em que eu quase desisti. Quando me dei conta de que cada novo documento abria mais perguntas do que respondia, percebi que o livro não seria um romance apenas, mas uma reconstrução de memória. Uma arqueologia de sentimentos e nomes.

Passei meses inteiros só ajustando cronologias. Saber quando João Ramalho morreu, por exemplo, virou uma obsessão. Descobrir o que aconteceu com Bártira, a mulher dele, foi outra: não há data certa, só rastros. Depois veio Antônia Rodrigues, a filha de Piquerobi, casada com Antônio Rodrigues, o Língua da Terra — e foi como seguir uma trilha apagada na mata: cada passo um palpite, cada palpite uma aposta de fé.

Mergulhei nas cartas jesuíticas originais — aquelas em português antigo e latim misturados — e ali percebi o quanto a história do Brasil foi escrita com pena, mas também com sangue. Vi como as palavras “salvação” e “domínio” conviviam na mesma frase sem o menor constrangimento.

E no meio disso tudo, lá estava o fio da minha história: Domingos Luís, o Carvoeiro, Salvador Pires, e os outros nomes esquecidos — gente que não está nos livros de escola, mas que levantou parede, ergueu vila, segurou espada e também fé.
Cada vez que eu encontrava o nome deles num documento antigo, era como reencontrar um parente distante.

Esses meses de pesquisa me mostraram que o Brasil não nasceu — o Brasil foi lutado, costurado, negociado e sobrevivido.
O que hoje chamamos de “São Vicente”, “Piratiniga”, “Santos” — tudo isso foi feito de gente com fome, medo e esperança.
E se hoje o leitor pode caminhar por essas páginas, é porque alguém um dia caminhou por aquele barro, enfrentou febre, mar, espada e solidão.

Dizem que escrever é inventar mundos. Eu discordo.
Escrever, no meu caso, foi reconstruir ruínas — com paciência, teimosia e, muitas vezes, desespero.
Passei quase um ano vasculhando o passado para encontrar o que restava do meu.

Quando finalmente terminei, não senti alívio. Senti perda.
Porque fechar o livro foi como enterrar todos eles de novo — João, Bártira, Tibiriçá, Piquerobi, Salvador, Domingos — só que dessa vez com uma lápide feita de palavras.

Este livro não é só uma história.
É um cemitério de vozes e, ao mesmo tempo, um milagre: o de ouvir de novo o que quase se calou.

E se há algo que aprendi nesses meses, é que ninguém escreve o passado impunemente.
Ele sempre deixa marcas.
E as minhas, estão todas aqui.

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